Acervo das postagens

Sábado, 16 de Fevereiro de 2008

Primeiras de 2008 (2)


Não sou a Morena,

Não sou a Filha do Nelson e da Sonia,

Não sou a Moradora do 1102,

Não sou a Aluna de Francês,

Nem me venha com psit,

Eu tenho nome

Me chamo Fabiana

Meus pais não torraram

Dinheiro em documentos

Pra me tratarem como cachorra.

Não sigo assobios,

Sou metida mesmo.

Da próxima vez

que cruzar comigo na esquina:

Ou me chama pelo nome

Ou vai ficar no vácuo mesmo.



Bia

Não é de Beatriz

Não é de Bianca

Porque Bianca já é pequeno


Quem precisa de apelido

É Fabiana

As Beatrizes não têm "i"

Então não adianta.


Apelidar de Fabi

É quase chamar de Fabiana

Pois corresponde

A mais de um terço do nome

E não é pra isso que apelidos servem


Nem me venham com Ana

Já existem muitas anas por aí

Não quero ser mais uma


E não me chamem de Biana

Pois é quase Bianca

E eu desrespeitaria o desejo de minha mãe assim.


Primeiras de 2008 (1)



O que guardo de Cláudia:

Lembro me de estar na casa

De sua outra patroa

Um tanto velha, mas refinada

Era na Tijuca, Praça Saens Peña

Num apartamento enorme

Lembro-me de escutar pianos

Que só tocavam em minha cabeça

Um ambiente solitário, sóbrio.

Não combinava com Cláudia.

No entanto foi pra lá que ela se foi

Sem despedida

Ela preferiu aquela sala bolorenta

Aos meus abraços de criança

Mas Cláudia precisava de grana

Ninguém lhe pagaria melhor

Do que a senhora da Saens Peña.

E Cláudia se foi. E nunca mais a vi

Nem na praça, nem em casa.

Esqueci seu rosto, mas não a sua voz.

Não sei se está viva, com saúde

Se está pobre

Mas ela era tão rica. De caráter

Ela era doce, tão doce

Quanto uma fada madrinha

Ela era princesa, era mágica

Ela era perfeita

Não sei por onde anda

Por que praças...

Só sei que me deve um abraço

Existente só na esperança

Se ela me abraçasse naquele dia

Tudo mudaria.

Não seria abandono

Não seria tristeza

Pois eu perguntaria à Claúdia:

Você volta?

E ela voltaria. Só pra me visitar

Cadê a Cláudia agora?

Tenho medo de desvendar esse enigma

Mesmo que eu a encontre bem de vida

Nunca mais tive sonhos tão bons

Passeios tão perfeitos

Quanto os feitos ao lado de Cláudia.

Devo meu mundo de fantasias a ela.

E ela me deve aquele último abraço.

Amar


Naquele dia, teus olhos marejados

Acabados de acordar, puros e limpos

Sem ainda carregar nenhuma marca do dia

Despoluídos de qualquer visão

E esses olhos só a mim viram, a única no quarto.

Eles brilhavam, o dia estava claro

E as paredes em rosa claro, o lençol amassado

Eu nos teus braços, seus olhos devassos

Me olhavam, me queriam.

Se deixei de sonhar naquela noite,

foi por estar preocupada com teus olhos

que não podiam estar abertos, antes do nascer do dia.




Marco zero


Quando penso que abandono,

vem você pedir de novo

Quando penso que me abandonas

vem alguma declaração inesperada

Quando acho que é o fim

vejo que nada entre nós acaba

Quando penso em ser forte

acho-me em suas mãos

Quando tento não parecer apaixonada

trato-te com a maior grosseria

Vou me derretendo e voltando a você.

Mas aí você pisa na bola novamente

Nos afastamos outra vez

E marco zero, voltamos ao ponto inicial:

Quando acho que engatamos de vez

Você me responde não, some, foge

Fico raivosa e sem te ver

Peço mil vezes a Deus um adeus

Mais Ele não está a fim de me atender.






Entrego-me pelo olhar

Não consigo controlar o que sinto

No momento em que te vejo

Nossa cumplicidade causa inveja

Até em mim mesma

Quando lembro desses instantes

Da mais sublimes sutilezas

Não preciso de palavras

Na verdade, nem sei o que falar

Só os nossos olhos

Penetrando um nos outros

São capazes de traduzir

Todo o sentimento bulindo aqui dentro

Cheguei no meu apê às 4h da madrugada.

Eram quatro da madrugada

Cheguei em casa

Meu irmão estirado na sala

Minha mãe em minha cama deitada

E eu fiz um chá

Fui pra janela, a lua ali estava

Limpa no céu, iluminando a caneca

Eu ouvia meu mp3,

música clássica,

e observei que

as varandas estavam todas iluminadas

As luzes acesas, e por quê?

Por que deixamos luzes das varandas acesas?

Não sei responder.

As ruas todas vazias

Os gatos solitários, e eu,

Na janela de casa,

Tomando meu chá

E ouvindo mp3

a garganta está seca, mas o olhos choram

a dor

que bate

no peito fraco

aperta bem forte

o coração vedado

que geme, grita e cansa

de tanto ser imprensado

contra a parede do pulmão,

já sufocado, sem ar renovado

tanto que tira o espírito e o ânimo

em cada soluço de pranto pesado.

A dor, como cavalo da morte, galopa

para o desespero mais profano, onde fé

é tão leviana que não resgata mais a esperança,

salvadora de um desesperado, saturado de sofrimento,

que dorme com a noite, já sem saber se vive um pesadelo,

e que desperta para um dia tão sombrio quanto o entardecer.














Palavras usadas como pílulas

são remédios sobre a escrivaninha.

As letras, doses de grafite,

saem à conta-gota da lapiseira.


Cada passada no apontador

renova o lápis pra enfrentar

mais declarações contra a dor.

A borracha apaga fracassos,

então voltam-se aos relatos

da mais pura melancolia.


E a folha do caderno

assimila-se a um receituário:

é tanta recomendação que me faço

que as doses de poemas e frases

fazem esse tratamento não ter fim.

29/09/04

Eu estava morta, na última vez que me vi.

O cheiro de podre saía de minha boca,

E eu achava ser o elixir da felicidade.

Não bebi da fonte de amores

a água que eu queria. Minha boca secou.

Eu renasci como heroína, debaixo das pedras

Que eu mesma joguei sobre minha consciência

Rasguei minha máscara, expus minhas vergonhas

Senti-me desnudada diante de minha arrogância

Senti-me corroída pela minha própria soberba.

Morri ontem, sem choro, sem corpo, sem reza.

Deixei tudo pra trás: a crença, a riqueza, a sorte,

A superstição, as condolências e a piedade.

Sacrifiquei meu coração, mudei meu enfoque,

Retomei conceitos depois de muito negá-los.

E o que se vê: sou eu mesma.

Muito difícil de suportar essa convivência de mim

Preciso aturar minha depressão, minha tristeza

Continuar sendo hipócrita, pra não deixar escorrer as lágrimas

De uma menina indefesa e pobre, que se acha a própria grandeza.




















gosto de gente que incomoda.

que polemiza

mas que me apresenta a verdade

e depois diz que é mentira


gosto de gente hipócrita

só pra ser elegante e diabólica

sigo cada passo delas

beliscando suas sobras de elegância


gosto dos mortos e dos sonhos

que me levam para um outro lado

gosto da escuridão na hora da transa

e na hora do medo, pra eu saber o que é medo


gosto de provocar e escrever coisas

aparentemente sem nexo

só pra chamar atenção

e fazer as pessoas perceberem quem eu sou

08/01/07

Roer unha e tomar café (dois vícios eternos)


Meus dentes tremem

Rangem, morrrdem

Quebrrram, craquelam

Arranham, partem

Cada unha de meus dedos emolientes

Na língua saliva

Cutícula e pele

Mas o nervosismo só acaba

Quando escuto o assovio de chaleira fervendo

Suspirando uma fumaça perfumada

Junto ao meu alívio gotejando pelo filtro de café.

Palavras, palavras, palavras....


a tristeza da vida: a falta de porquê pra morte

a prisão do louco: a falta de porquê pra vida

a irritação da criança: a falta de porquê pra obedecer

a angústia da mãe: a falta de porquê pra punir

a arma do criminoso: o porquê para o crime

a revolta das vítima: a falta de porquê para o crime

a finalidade da escola: dar porquês ao mundo

o milagre do educador: ter porquê pra tudo


Identidade se busca pra justificar a vida

Loucura se cura pra não recorrer à morte

Punição vem pra valorizar a vida

Violência surge pra valorizar a morte

Milagre conta-se pra engrandecer a vida

Reza prega-se pra fugir da morte

Ciência arma-se pra tirar a dor da vida

Arte estende-se pra embelezar a dor da morte






Palavra de economista: feedback

Palavra de administrador: developpement

Palavra de político: merchandising

Palavra de autodidata: insight

Palavra de propagandista: top

Palavra de rapper: fuck

Palavra de atriz pornô: God

Palavra de galanteador: baby

Palavra de Tarantino: damm

Palavra de todas as músicas do mundo: love

Palavra de ordem: sexy

Criança e cachorro

crianças e cachorros

correndo atrás de gato e de pombo

são que nem louco desamarrado:

levantam patas e braços, correm em disparada

só pra fingirem que “não iam pegar mesmo...”

Ouros




O ouro amarelo foi o primeiro valor do homem.

De moeda virou jóia, mas não veste nem alimenta.

O ouro branco não poderia ser mais doce e mudou a culinária

O açúcar compensou as Descobertas... e sobrepesou nossas balanças (e costas).

O ouro negro foi a maior descoberta, causou muita guerra.

Seu uso nos queima como forno em plena Terra,

Assim como o Sol, o ouro do planeta, que nos mata, nos acerta

Em cada flecha de fogo furando a frágil atmosfera.


E pensar que nenhum deles protegem a nossa pele. Nem a do nosso planeta.

Há quem se valha do colarinho branco pra explorar o negro.

E este é veneno nas mãos de muitos que crescem, a cada dia,

Em número e tamanho.

A vida deixou de ser doce para muita gente.


Falo de três riquezas vindas da terra, debaixo dos pés.

Que mesmo exploradas, estocadas, não salvam nenhum homem.

Apenas levam-no a se perder.


Nenhum desses ouros tem a mesma espécie.

O primeiro é minério e vegeta; o outro tem fonte vegetal e brilha como pedra.

O negro não brilha, mas evapora, gasosamente pelo ar que nos cerca.

O clichê


Querida, você tem que vencer.

Tem que achar seu grande amor

Superar as intrigas

Amar perdidamente

Engravidar do nada

Derrotar sua inimiga

Provar que é honesta

E boazinha

Ficar muito bem de vida

Ser linda e gostosa

E muito bem vestida

Ter um filho legítimo e perfeito

Que cairá nas mãos da rival

Aí, você a mata

E vive feliz pra sempre

Você morre heroína,

Vira pó

Vicia um monte de gente

Torna-se vilã,

Se não for na próxima novela,

Será na capa de uma revista,

Desmoralizando um narcótico astro.

Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

O acidente


Da janela do ônibus, ela esperava por pernas que passassem na calçada, cruzando-se. Enquanto isso, o ônibus, no sinal, esperava pra arrancar sobre mais uma faixa listrada. Até que houve uma freada. Não era do ônibus. O que se viu foi uma bicicleta voar para um canto e um carro para o outro, carregando o corpo do homem junto. Leila não quis ver. Suas pernas tremiam, a calçada desmanchou. O meio-fio virou banco para os desesperados chorosos. O carro atropelador era da polícia. "Ih! Atropelou o ciclista". O motorista do ônibus não pôde ficar, precisou arrancar. E as pernas, que antes cruzavam-se, pararam para observar. Flexionavam, agachavam, buscavam o melhor ângulo. Só o cachorro, tão acostumado a olhar as pernas de cabeça pra baixo, olhava as pessoas. Ele levantou da calçada. Deu alguns passos. Levantou também as orelhas. Tentava entender o que foi a freada. Leila olhava o cachorro – focava em algo fora do acidente. O cachorro foi sumindo e o ônibus andando. E Leila, tentando parar suas pernas tremidas, voltou a contar – agora patas de cachorro. E pelo caminho viu um monte delas mancando.

Cachorro de rua está acostumado, não a freadas, mas a acidentes em suas próprias patas.



Domingo, 22 de Julho de 2007

Os homens, os amigos e a verdade, com o TEMPO, só crescem



o homem e O TEMPO


homem

==TEMPO homem

=TEMPO homem

TEMPhomem

TEMPhOmem

TEMhPOmem

TEMPOmem

TEMmePOm

TEMmemPO

TEMemPO

TemPO

TEMPO



Caro amigo


À primeira vista, você era mais um

À segunda vista, um problemão.

Mas se foram as vezes, o mês e então

você me lembrou um antigo sorriso

que estava guardado sem permissão

Era algo que não fora esquecido

mas que eu privara do cotidiano vivido

Veio você, como doce encanto

Amigo perfeito, companheiro

Mais que isso: parceiro

de todos meus sonhos vãos.

Amigo que parece de longa data

Pois lembra nitidamente meu irmão.

Amigo de todas as praças

De rua, de casa. Amigo-alma

Que corresponde aos mínimos gestos

e aos mais rápidos e sutis pensamentos

Com risos, acréscimos e tensão,

Se não fosse você, pra que cérebro?

Os lazeres, o estudo, o andar

Tudo ganha reforço, olhares e aprovação.

Caro amigo, poemas são poucos

Dizeres são fracos e vergonha é fato

Traduzir o que sinto é colocar sentimento em risco

de vil banalização. Banalizamos sim,

mas os nossos olhares sobre o mundo

os nossos comentários oportunos

os nossos escrúpulos despretendidos

Calo-me, porque me condeno,

dizendo assim, sem inutilizar pudores

Deixo-te na incógnita de valores

Os seus, pra mim, são de ouro

A verdade se chama pelo seu nome.






Se a realidade não fosse dura,

A loucura não seria crua, tampouco medida em graus

Fervida e esquentada até os nervos,

Presa em ebulição.


Se a normalidade é clara e precisa

e pode ser mensurada e até definida,

por que só há graus de anormalidade?

(Se a loucura é desmedida!)



Não sei se é tarde pra dizer que, à meia noite,

começa o dia e que a noite é uma criança,

quando só adultos saem de casa.


se paradoxo é opinião justa e oposta,

então por que consideram-no um vício?

Sei dizer que verdade é nua, envolta em ficção,

em fel e véu de censura, velada na imaginação,

violada na interpretação, vivida no real,

Versifivada por educação, vilipendiada por dinheiro,

valorizada por estética (ou será desfigurada?)

(por faca ou navalha)

Se verdade fosse boa, libertava.

Se verdade fosse útil, ninguém enganava.

Se verdade fosse crédito, ninguém ludibriava.

Se verdade fosse verdadeira, ninguém por ela se matava.

Atrás dela, vou. Resignada e comedida


Ai de mim, que ainda tenho a esperança,

a mentira mais infernal de toda a História

promessa miúda que só reside em sonho

e que não vence o acaso, apenas existe em graça de reza.

Domingo, 1 de Julho de 2007

Poesia Infantil


Me mandaram ir à merda

E eu fui. Chegando lá

Só vendo: tinha muita coisa ruim

Resolvi pegar um outro rumo

Parei na puta que pariu

Desagradável também

Agora vivo no inferno

E daqui apenas saio

Pra trazer comigo alguém.

Quinta-feira, 21 de Junho de 2007

algumas poesias 2004-2007

Étoile


Uma estrela caiu lá do céu

desceu brilhando

caiu em meu olhar

me fez chorar


Ela se apagou em meus olhos

cegou-me e desde então

nada mais posso enxergar

além da imagem que me lembra

sua face bela e terna.


Sei que um dia você passará

e mais uma lágrima terá despencado

brilhando tanto quanto a estrela

evaporante no ar.





ele, tudo


Eu o amo

todos sabem

Morro por dentro

e ninguém pode saber

Tenho vergonha

sinto-me culpada

impotente é a palavra

mas a minha esperança

me delacera mais um pouco.


Quanto mais eu fujo,

mais quero estar próximo

quanto mais desisto,

mais eu o desejo.


Ele é o feio mais belo,

o bobo mais sério

o normal mais gênio

o homem perfeito

os demais homens são outros,

apenas.

Ele é a certeza de ser

tudo.

É o vazio que me completa

é a dor que me alimenta

é o nunca-foi-já-ter-sido que me deixa na espera.




POLIMANIA

Tenho polimania,

confesso que tenho

por tudo que escolho.

Não sei decidir,

não sei pertencer

não sei separar

Queria aprender...

Seria útil

pois, embora excêntrica, sou introvertida

embora contraditória, sou producente

embora extravagante, sou interativa

e enquanto egocêntrica, sou ideofóbica.









O poema seguinte foi inspirado num momento de total devaneio, enquanto eu andava pela R. Evaristo da Veiga ou Senador Dantas...não sei. Eu juro que vi as pessoas dançando. Não sei se era o calor. Fiquei tão assustada que escrevi numa tacada só. Acho que foi num banco da Cinelândia.


juro vi gente dançando

iam pela rua chacoalhando ombros

e balançando quadris

como fosse merengue


Elas atravessavam o sinal

Traçavam passos cortantes

Até atingirem o meio-fio

em seus embalos deslizantes


Sem entender nada

eu acompanhava essa gente

em meus olhares perplexos

enquanto rasgava o trânsito


As cabeças balançavam

Durante conversas de gestos

e elas pulavam de cá pra lá

pu-lan-do e tre-men-do


Se era delírio? Poderia.

Mas juro vi gente dançando

em passos deslizantes

no baile alucinante e urbano






ó meu espííírito criador!

Ai! tu demoraste tanto

Eu já havia desistido

Evocava-te toda noite

De tanto, perdi o viço

Não fujas nunca mais

Nem em momentos estranhos

Meus problemas são comigo

Não precisa te envolver tanto

Tudo bem que foi dramático

Que na depressão perco o ânimo

Mas tu me entristeces ainda mais

Com o teu abandono

Agora abusa desse corpo

Ocupa à força a minha mente

Venha a mim toda noite

Senso criativo, tu és meu pra sempre

Sintagmas e paradigmas






Nada é mais cruel que o eufemismo

(a elipse da verdade crua,

zeugma que corrói a ternura)

usado em tua fala displicente.


Virei vítima de tua

hiperbólica maldade

Minha personificação

tornou-se mera figura de sintaxe.


Peguei minha luneta grã-mágica

e vi tua perfídia

Reuni provas com a metonímia:

a parte, o todo, o autor,

a obra, enfim...

elementos cheios de polissíndetos,

que só agora colhi assindeticamente.


Diante de tantos momentos pleonásticos

Só me restam reticências

Que me tiraram o poder da palavra

e me fizeram refém de catacrese.


Minha vida ficou mais perdida

do que leitura de sínquise.

Pois tu fostes loquaz e me fizeste acreditar

em hipérbatos retumbantes

Passei a transcender todo significado

e buscá-lo no inversamente.


Ainda bem que percebi a hipálage

do teu discurso incoerente.

Agora parei com as símploces,

epístrofes, anáforas e antífrases.

Tô adorando essa nova fase:

em clímax.

Desconstrução e Queda











Desconstruo o branco

pelo brumo do carbono

Desenho iconogramas

em truques de movimento


E aparecem curvas delineadas

ao sabor dos dedos,

Desejosos por traçarem

Doces riscados

Sobre as linhas de um caderno.


Em momentos especiais

saem geniosos apontamentos:

efêmeros, ao deixarem de ser

pensamentos;

eternos, ao se tornarem

depoimentos.

10/10/04





A cabeça que cai:

decapitas caedere,

cortada – crescida –

tenaz despenca

Em mórbida comoção,

antes da morte anunciada,

morimba e descança

na cova e na herança.


solta do corpo,

alma pura e plácida,

sobe aos céus

marchando em dança.


purifica e volta

pra encarnar outra forma:

persona e metáfora

tu és homem que pensa

28/08/05

paterno

Ser a luz dos teus olhos

Adorar ser tua menina

Deixo-te apertar minhas mãos

Entre as duas tuas

Como se fossem armadilhas


Consolamo-nos na sinceridade

Discutimos por amores

Teus erros me ensinam

Tua voz sabe pra tudo um nome


Broncas, piadas, críticas

Assim fui crescendo

Rente ao teu peito quente

Abaixo de tua brilhante mente.


Homem, inveja que sinto

Da distância entre a gente

Mais perto de ti do que eu.

Conformo, mas não sempre...


Tudo bem. Saudades sei que sentes

Apesar da não reclamação.

Ainda que sejas desatento

Estou certa da morada que tenho

No teu paterno coração.

- -

Sinto-me inválida

Por ser indiferente

Tento não me horrorizar

Com o alto número de indigentes

Todos torcem o nariz pra eles

Porque fedem

Mas a maior imundície

Fazem com os impostos da gente

João



João, mas que sorriso contente!

Parece bochechas de algodão

Dentes de leite adoçado

Olhinhos teimosos de cativantes!


Que covinhas! Iguais às das mãos

Que batendo palmas, seguem

As risadas mais fofas que o homem

Produziria até então.


Os gritinhos pulam junto com os pés

Sorriso maledicente

Olhar irônico

Mãos incontroláveis


Se dão as costas: cadê João?

Dá pena de bronca...

Ele sabe o que faz

A travessura é festa

É brincadeira bela demais.